
Era uma vez a Carregadora de Piano. Ela não tinha nome. Era mais conhecida como a filha de fulano, a vizinha do beltrano, a amiga do silcrano... Seu nome dependia da situação.
Um dia ela resolveu aprender a tocar o piano. Entrou na escola de piano. Estudou durante árduos anos. Foi uma época feliz. Ela teve nome próprio e as pessoas até pediam pra ela tocar o piano, mesmo sem ter tanta experiência. Não era tocadora ainda, mas era aprendiz, e isso já era encantador, era promissor.
Até um dia se formar como Tocadora de Piano. Carregava esse orgulho no peito, mas a medida que o tempo foi passando, ela foi vendo que não era tão fácil assim ser tocadora. Descobriu que o mundo fora da escola era bem diferente. Então se acuou. Acanhou-se. Teve medo de fazer feio diante dos profissionais. Acovardou-se.
O que faltou para a Tocadora foi entender que dentro de sua cabeça, ela precisava deixar de ser apenas uma Carregadora. Faltou ela acreditar. Faltou ela reconhecer que merecia aquele título e todas as honras.
Com todo esse medo e a falta de consciência do seu valor, ela desistiu. Pensou que a melhor coisa a fazer era continuar carregando o piano. Pelo amor a música. Ela carrega e outro toca. Ninguém nem perceberia. Sentiu uma pitada de culpa e derrota. O que importava, porém, era que a música continuaria sendo tocada, não por suas mãos, mas no fim a música era o que importava.
Assim, ela viveu feliz para sempre, a seu modo. Ouvindo dos fundos a música sendo aplaudida. E sem nunca saber como teria sido tocar o piano diante da platéia.
Obs.: Aprenda a tocar piano. E tenha coragem.
Maraisa Marques